Cresci ouvindo, do meu pai, que não se bate numa mulher nem mesmo com uma flor. Pois é, prováveis leitores, meu pai era um cavalheiro. Já contei aqui, neste mesmo espaço, alguns anos atrás, como ele se procurava em estar sempre com dois lenços, para poder oferecer, se necessário, a uma senhora. E em portar um isqueiro, mesmo não fumando, para acender o cigarro de uma eventual fumante. Delicadezas de um filho de portugueses, gentil e urbano, cordial e viril. Hoje, diante desses hábitos amáveis de homens como meu pai, dirão alguns: ‘Isso foi ontem. Outros tempos! Gentilezas do século XX! Cortesias do passado!’. Alguns, mais debochados, falarão desse comportamento como se fossem anedotas. Sim, porque hoje um homem não dá lugar, num ônibus nem mesmo a uma mulher grávida de nove meses, para ficarmos num exemplo trivial. Eu me lembro de que meu pai, mesmo aos 80 anos, oferecia seu lugar a uma jovem de 20 anos, apenas pelo fato de ser ela uma mulher, já que a mulher, para ele, devia ser tratada com reverência e carinho. Sim, eu sei que isso é uma forma de machismo. De quem, por ser homem, se vê como uma pessoa forte, enxergando a mulher como um bibelô. Mas nos dias de ontem não soava como machismo, nem se sabia o que era isso. Soava como gentileza e educação. As mulheres ainda não reivindicavam igualdade com os homens, exigindo rachar com eles a conta no restaurante. Não. As mulheres queriam e apreciavam o tratamento diferenciado, que as distinguia como pessoas delicadas, necessitadas de proteção e afeto. Hoje chegam a rir se um homem se levanta quando se aproxima, se puxa uma cadeira para que se sentem. Um homem assim, deve pensar, não tem pegada.
– Mãe – disse eu, um dia, na hora do almoço –, sabe quem eu encontrei ontem no cinema? Aquela mulher, a Dalva, que foi nossa vizinha.
Antes que minha mãe respondesse qualquer coisa, meu pai me corrigiu em voz baixa:
– Você quer dizer, meu filho, que encontrou aquela senhora, a dona Dalva.
Entenderam? Para ele, não se podia nomear a dona Dalva, amiga da família, esposa devotada, mãe abnegada e dona de casa prestimosa de “aquela mulher”. Soava ofensivo tal tratamento, segundo meu velho e cordial pai. Homem de ontem, sim, não compreendido nem aceito nos dias de hoje. Eu me pergunto: como será amanhã? Como serão homens e mulheres em 100 anos, para ficarmos na dimensão de um século?
Há quem diga que voltaremos no tempo, redescobrindo a delicadeza. E que esse retorno se dará por vontade de homens e mulheres, saudosos dos dias de ontem. Dizem também que haverá um retorno ao vocabulário romântico, com os homens declamando versos no ouvido das mulheres, que soarão como música. Há quem garanta que os palavrões serão banidos da linguagem coloquial, restituindo-se a cortesia cotidiana e coerente. Será? Bem, nos dias de amanhã nada será impossível. Pena que não estaremos presentes. Para rir ou para chorar.
Muito se escreveu e se escreve sobre a mulher. Se procurarmos na Internet, encontraremos centenas de frases exaltando essa que carrega em si a essência da vida. Mas talvez nada se compare, em beleza e poesia, aos versos extraídos do Talmude, livro que guarda a sabedoria oral dos antigos rabinos, que diz: “Nunca faça uma mulher chorar, pois Deus conta todas as suas lágrimas. A mulher saiu de uma costela do homem, e não dos seus pés, para ser pisada. Nem da sua cabeça, para ser superior, mas do seu lado, para ser igual a ele. E de baixo do seu braço, para ser protegida. E do lado do coração, para ser amada”.
Manoel Carlos